domingo, 20 de julho de 2014

A história do Power Violence - Parte 1



O Power Violence (ou PV ou Powerviolence) é um termo empregado originalmente para definir a sonoridade de um conjunto limitado de bandas, especialmente às californianas do fim dos anos 80 e início dos 90, tendo como principais representantes o Infest, No Comment, Capitalist Castualties, Neanderthal, Manpig, Man Is The Bastard, Crossed Out e em seguida também Spazz, Lack Of Interest, Despise You. A maioria destas bandas apresentava características semelhantes, como um hardcore ultra rápido e agressivo intercalado com passagens cadenciadas, quebras de ritmo, vocais urrados, letras sérias e negativas, artes de álbuns com imagens simples e monocromáticas e o espírito do "faça você mesmo". 

O início deste tipo de som é muito atribuído ao Infest, porém, é importante citar algumas bandas que influenciaram tanto o Infest quanto muitas outras que viriam em seguida:
- A velocidade de bandas como D.R.I., Deep Wound, Lärm e Neos;
- O hardcore de Boston de bandas como: Negative FX em seu álbum de 1982. O Impact Unit com seu EP My Friend The Pit, cuja música Nighstalker é muito semelhante à sonoridade e estrutura das músicas de power violence, tendo partes rápidas em contraste com outras arrastadas, lembrando muito o Crossed Out, que inclusive tocava esta música. Podendo assim ser perfeitamente uma grande influência. O DYS em seu disco The Kids Have Their Say.
- Bandas youth crew como Youth Of Today, cujo vocal lembra bastante o do Infest.
Também não podemos esquecer do Siege, com sua demo de 1984, uma destruição sonora que foi influência clara para a criação do power violence, thrashcore e grindcore.

Com estas influências, o Infest nasceu em 1986 e criou seu som bruto e rápido, ainda sem muitas quebras de ritmo, mas com um tipo de vocal urrado que iria se tornar uma das marcas registradas do power violence. Gravaram algumas demos em 1987 mostrando a que vieram.

Eric Wood (PHC, Neanderthal, Man Is The Bastard, Bastard Noise): "Morando no sul da Califórnia, eu tive a sorte de ver o Infest tocar várias vezes. Eles eram foda! A primeira demo tinha uma qualidade sonora primitiva, mas você podia sentir que tudo estava ali, a emoção e a velocidade. Eram uma grande banda e todos os amavam! Uma pena que ela acabou!"

Chris Dodge (Spazz, Despise You, Low Threat Profile, Slap A Ham Records): "Eu vi o Infest pela primeira vez em 1988. Ninguém sabia quem eles eram e eu acho que muita gente ficou confusa. Eles eram mais sérios e rápidos que muitas bandas, mesmo em 1988. Eu realmente gostava deles, e catei a demo logo depois."

Em 1987 foi formado o No Comment que logo lançou sua demo tape. Eles faziam um som rápido e bem executado, muito influenciado pelos primeiros EPs do D.R.I. e com muitas quebras de ritmo. 

Em 1988 saiu pelo selo suíço Off The Disk, o clássico LP "Slave" do Infest, um dos melhores registros do hardcore, contando com as músicas de um EP lançado no mesmo ano, além de outras oito faixas. 
Neste momento o Capitalist Casualties dá os seus primeiros passos e grava uma demo tape com 26 sons ao vivo no Gilman Street, indo totalmente de encontro com o D.R.I. do início, ainda sem apresentar tanta velocidade. 

Em 1989 foi a vez do excelente EP Common Senseless do No Comment, ainda melhor e mais rápido que na demo e com uma gravação de melhor qualidade. Neste ano o Infest faz um show com o Pissed Happy Children de Eric Wood, cuja gravação seria, no ano seguinte, o primeiro registro do selo Slap A Ham de Chris Dodge, que acabou se tornando o principal selo no que diz respeito ao power violence, lançando diversas bandas naquele período. Selo este que mais tarde também foi acompanhado pela Sound Pollution, de Ken (Hellnation); 625 Thrashcore, de Max Ward (Spazz, WHN?, Plutocracy, Scholastic Deth, Capitalist Casualties) e Deep Six, de Bob (Lack Of Interest).

Dodge: "Eu comecei o selo para ajudar bandas que eu gostava e não estavam tendo o reconhecimento que mereciam. O No Use For A Name foi uma delas. Quando eu lancei o 7" deles, eu não estava mais na banda, mas eu ainda queria ajudá-los porque achava que eles eram ótimos. Eles não haviam despertado o interesse de outros selos. O mesmo com os Melvins, eu fiquei amigo deles quando se mudaram de Washington para San Francisco. Não havia muito interesse na banda, eles tocavam em pequenos lugares para poucas pessoas. Meu foco principal passou a ser aquilo que estava se tornando a cena de power violence. Eu gostava da música e das pessoas das bandas, mas também ainda não haviam sido reconhecidas. Bandas como Capitalist Casualties e No Comment já existiam há cerca de cinco anos sem nenhum selo interessado para lançar seus discos. Eu não podia acreditar o quão boas estas bandas eram e fiquei impressionado como não haviam conseguido ninguém para ajudá-los a lançarem seus álbuns”.

Esta parceria entre o Infest e o Pissed Happy Children deu origem, ainda em 1989, ao Neanderthal, unindo Matt Domino, guitarrista do Infest com Eric Wood, baixista do PHC. A velocidade do Infest foi incrementada às passagens cadenciadas e o baixo trabalhado do PHC, dando origem de fato à sonoridade e ao nome "power violence". Este termo saiu de uma brincadeira, em um ensaio do Neanderthal onde Matt buscava um novo rótulo para definí-los como algo diferente e brutal. As características mais significativas do power violence estavam presentes no Neanderthal, que não chegou a fazer shows, mas foi o ponto de partida para o surgimento de outras bandas. 

Eric Wood: "Eu e Matt Domino tínhamos origens diferentes. Eu sou um pouco mais velho do que Matt e eu fui criado com coisas como Mahavishnu Orchestra, Alice Cooper do início, depois Raw Power, Zero Boys, Toxic Reasons, e então Infest. No Neanderthal, nós não tínhamos muitas influências diretas, nós apenas tentamos tocar. Tentamos ser malucos em nossas mentes e desenvolver nosso próprio som. Eu estava no PHC e ele ainda estava no Infest, ao mesmo tempo, eu também estava tocando em uma banda instrumental chamada Cyclops, apenas com baixo e bateria." 

"Algumas partes do 7" Fighting Music do Neanderthal pegaram os tempos e os durações dos sons do Grindcore ("Built for brutality", tem apenas 16 segundos), mas sem as influências metálicas óbvias das bandas Grind da Earache. As partes rápidas devem muito ao hardcore punk, enquanto o metal influenciou as partes arrastadas e pesadas, e também as partes progressivas."

"O 'Kubby Hole' em Pomona, CA, onde o Neanderthal ensaiava, foi o lugar onde 'power violence' foi dito pela primeira vez, no final de 89. Devo dar todos os créditos a Matt Domino. Nós estávamos falando algo do tipo, 'Precisamos entrar com nossa própria parada, não queremos ser agrupados no hardcore, punk e nenhum outro gênero'. Queríamos aparecer com nossa própria descrição do nosso som, e do nada Matt Domino disse 'fuckin' power violence'. E então ficou assim 'west coast power violence'. Tentamos dar um senso de humor, tipo 'nossa localização geográfica é melhor que a sua', e também passar uma imagem bem séria e brutal."

Evan Garner (Burned Up Bled Dry): “Eu acho que o power violence representou o lado DIY do grindcore, bandas como nós que cresceram ouvindo Black Flag, D.R.I. antigo, C.O.C. antigo, coisas do tipo, enquanto o Grindcore representou uma lado mais death metal, o lado Napalm Death - não que o Scum não seja um dos meus albuns preferidos! É mais uma parada punk do que uma metal: shows em porões, ética DIY, poucos mas perfeitos discos”.

Os lançamentos do Neanderthal foram o clássico EP Fighting Music (Slap A Ham, 1990) e os splits EP com Blatant Yobs (Old Word Records, 1991) e Rorschach (Vermiform, 1991), totalizando uma discografia com apenas 8 músicas. Nas gravações, chegaram a contar com a participação de Joe Denunzio, do Infest e Joel Connen, que faria parte do Man Is The Bastard.

Em 1990 mais bandas passaram a surgir, como o Crossed Out e o Man Is The Bastard. O Lack of Interest também nasceu nesta época, porém só foi lançar seu primeiro registro em 1993.
O Crossed Out, em minha opinião, é a banda que melhor define a sonoridade do power violence: músicas extremamente rápidas e brutais, que a qualquer momento ficam lentas e não menos agressivas, voltando em seguida a acelerar, letras críticas cheias de ódio e desesperança na humanidade. Muita influência de Infest e Neanderthal e é também uma das principais influências para muitas bandas de power violence até hoje. As artes dos álbuns sempre traziam imagens sombrias de cenas de assassinatos e serial killers famosos.
Em 1991 lançaram a sua demo tape e o primeiro EP 7", que saiu pela Slap A Ham para se tornar um clássico. 


Já o Man Is The Bastard é um caso à parte dentro deste seleto grupo de bandas. Mesmo que tivesse as características do power violence, foi a banda mais experimental e totalmente fora do convencional, tendo dois baixistas, ruídos eletrônicos e músicas muito mais longas que o habitual. Foi formada por Eric Wood, Joe Connell e Shawn Connell do Pissed Happy Children, mantendo bastante da sonoridade desta banda, assim como do próprio Neanderthal, além do Cyclops, outra banda de Eric Wood e Joe Connell. Mais tarde Andy Beattie do No Comment integrou-se à banda como um dos vocalistas. A proposta principal, além do som agressivo, era de passar mensagens sérias e extremamente politizadas.
A música "H.S.M.P." ("Hispanic small man power"), do split com a banda Aunt Mary, foi a primeira música a utilizar o termo "power violence" como um movimento. A música narrava os acontecimentos de um show do Man Is The Bastard e em seu começo eram citadas algumas bandas referenciando-as ao West Coast Power Violence:

"Crossed Out, No Comment, Manpig, Capitalist Casualties, Man Is The Bastard. West Coast Power Violence. Let's Fucking Go!"

Eric Wood: "Naquela noite, havia muita besteira sendo falada e muitas brigas em uma área do público. Um pequeno homem hispânico, um cara ranchero estava no bar, todo tranquilo, se levantou a foi até a microfone (não sei como ele conseguiu pegar o microfone, mas enfim) e disse 'Por favor! Por favor! Todos devemos ser amigos!' Ele entrou dentro desse clima violento em uma tentativa de acalmar a todos, e realmente conseguiu. Ele conseguiu quebrar o clima tenso no show sendo um estranho se jogando no meio de um grupo estrangeiro e espalhando boas maneiras. Quando Aaron Kenyon viu isso, ele surtou! Nisso, Kenyon citou o quinteto première power violence que dava forma ao movimento: Crossed Out, No Comment, Manpig, Capitalist Casualties e Man Is The Bastard. Essas eram as bandas que existiam e que eram power violence." 

Para alguns dos antigos, o PV é representado apenas por estas bandas. Mas sabemos que o PV é algo difícil de definir, assim como a definição de um filme trash, por exemplo. Cada um tem sua percepção.

O Man Is The Bastard teve a discografia mais extensa do PV, mas acabou começando a querer ir mais para o lado experimental, com elementos eletrônicos até vir a culminar no Bastard Noise, banda que surgiu como projeto paralelo do MITB e segue tocando até hoje.

São vários os álbuns do MITB relevantes e recomendados, como:
- Split EP com o Pink Turds in Space (Slap A Ham, 1991);
- Sum of the Men ''The Brutality Continues...'' LP (Vermiform, 1991);
- Abundance of Guns 7'' EP (SOA Records);
- Split EP com Crossed Out (Slap A Ham, 1992);
- Split EP com Pink Flamingos (Farewell, 1993); 
- Split LP com Capitalist Casualties 12'' (Six Weeks, 1994);
- Thoughtless LP (Gravity, 1995);
- Mancruel cd (Deep Six, 2000).

Além de duas coletâneas em CD com músicas de vários álbuns: D.I.Y.C.D (Slap A Ham/Deep Six, 1995) e Sum Of The Men 'The Brutality Continues...' (Vermiform, 1996).

Professor Cantaloupe (Gasp): "O MITB tinha uma pegada artística na dicotomia do powerviolence, na medida em que abraçou paz, amor, igualdade e respeito a todos os seres vivos como a prioridade número um, enquanto tocavam um som agressivo no estilo 'Eu vou chutar o seu traseiro'".

Goretex (Sem Phixion): "MITB é uma daquelas bandas como Crass ou Black Flag para mim, não só por terem sido tão brutais, você realmente sentia que eles acreditavam no que estavam falando". 

Depois da demo tape, o Capitalist Casualties lança o seu primeiro EP, The Art Of Ballistics 7" (Slap A Ham, 1991) com algumas músicas da demo mas executadas com maior velocidade e agressividade, que foi evoluindo cada vez mais nos discos posteriores. O primeiro álbum full length deles foi no ano seguinte, o Disassembly Line. Desde então sairam muitos EPS e splits, inclusive um com o Man Is The Bastard em 1994 que é excelente. Também saíram splits com MDC, Slight Slappers, Ulcer, Stack, Monster X, Unholy Grave, Hellnation e, o melhor dos mais recentes, com o Lack Of Interest, entre outros. Além de duas coletâneas contendo músicas de vários EPs e splits, mas apesar de todos esses registros, sem contar o ao vivo Live In Nagoya, lançaram somente outro full length, o Subdivisions In Ruin. Vale destacar que no início dos anos 90 a banda tinha um som mais fastcore, rápido e sem tantas variações, que foi mudando com o tempo, ficando mais quebrado, principalmente com a entrada de Max Ward na banda e agora, com Haroldo na bateria, o som parece ter voltado mais às suas origens.

Em 1991 o Infest solta mais um EP, chamado Infest, lançado pela Draw Blank que mais tarde, em 2006, foi ampliado para o LP 10" Mankind (Draw Blank e Deep Six), com algumas músicas a mais. Também foi gravado um show na rádio KXLU e foi lançado em 2001 em LP 12" pela Deep Six e Draw Black Records.

Em 1992, sai pela Slap A Ham um dos principais registros do power violence: o EP Downsided do No Comment. Que é simplesmente perfeito, com excelente qualidade de gravação e técnica dos músicos, letras depressivas e o vocal enfurecido de Andy Beattie. Um álbum indispensável para os apreciadores do gênero e que foi, juntamente com o Common Senseless, relançado pela Deep Six recentemente.

Dodge: "O No Comment era um enigma. Eu tive a oportunidade de conseguir a demo deles e se tornou um dos meus favoritos, mas eu achava que eles tinham se separado. Muitos anos atrás eu estava fazendo review de algumas coisas para a Maximumrocknroll e uma cópia do primeiro EP chegou até mim. Eu não acreditava que eles continuavam tocando, então imediatamente escrevi para eles, pois eu queria ajudá-los a lançar mais material. Downsided estava previsto para ser um LP, mas eles acabaram gravando apenas seis minutos de música, então acabou tornando-se um 7" EP. É um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos. "

Andy Nolan (The Endless Blockade): "Power violence é a música que realmente me atraiu durante o início até meados dos anos 90. Ele cortou o papo furado e devastou tudo em seu caminho, ele sintetizou Heresy, Neos, Ripcord, Lärm, Impact Unit e muitos outros grandes nomes perfeitamente, atualizando-os para uma nova era e sempre mantendo um olho sobre as raízes que cresceram antes. Quanto a estar alinhado com power violence, eu diria que somos uma banda de power violence de influência, ou uma banda de neo-powerviolence. Meu disco favorito da época é definitivamente Downsided do No Comment. Você não pode fingir aquela raiva desesperada."

Beau Beasley (Insect Warfare): "De todas as bandas da primeira onda do power violence, o No Comment foi a que teve o maior impacto para mim. Eles pegaram todas as coisas que eu gostava do D.R.I. e elevaram à velocidade da luz.  Dos quatro grandes, eles são os menos discutidos, mas eles sempre serão os meus favoritos. Bem, eles e o Crossed Out, é claro. O Crossed Out é o deus obscuro do power violence."

1992 foi um ano importante para o power violence com mais dois splits do Crossed Out, o EP 5" com o Dropdead e o EP 7" com o Man Is The Bastard, com suas gravações mais brutais. Também em 1992, o Manpig gravava algumas músicas que acabaram perdidas e, após muito tempo, foram regravadas e lançadas em 2012 pela Deep Six, como o LP The Grand Negative. O Manpig foi uma espécie de continuação do Infest, com a parada da banda em 1991, com Matt Domino nos vocais e guitarras e RD Davies na bateria.


Em 1993 aparece também o Lack Of Interest com o seu split EP com o Slave State (Slap A Ham). O Lack Of Interest fazia um som na linha do Infest, mas mais rápido e complexo e com mais variações, também herdando influências do No Comment. Tinham uma constante troca de integrantes, principalmente nos vocais, onde geralmente eram revesados por Rick e Mike que constantemente saiam e voltavam a banda, onde um ou o outro era o vocalista, ou até mesmo ambos, como no split com o Capitalist Casualties (Six Weeks, 2010). Bob, o baterista, também é o responsável pelo selo Deep Six, que lançou diversos álbuns da banda. Ele é neto do icônico Grandpa, um senhor de cerca de 85 anos que está em todos os shows do Lack Of Interest e cia. Definitivamente o vovô power violence!

Os outros splits do Lack Of Interest foram com o Spazz (1997, Deep Six), com Stapled Shut (1997, Deep Six), o primeiro full length, Trapped Inside, de 1999 (Slap A Ham), o segundo CD/LP Never Back Down (2005, Deep Six), o split EP com o Weekend Nachos (2012, Deep Six) e mais recente, o split CD/LP com o Bastard Noise.

Mas 1993 foi triste por ser o ano do fim de duas importantes bandas: Crossed Out e No Comment. O No Comment fez seu último show na primeira edição do Fiesta Grande, que era um festival organizado pela Slap A Ham e que ocorreu entre 1993 e 2000 no lendário 914 Gilman Street, reunindo bandas de hardcore, power violence e grindcore. Aquele que também deve ter sido um dos últimos shows do Crossed Out, que segundo o que se encontra na internet, fez apenas 16 shows, neste, inclusive, com a participação de Eric Wood (Neanderthal e Man Is The Bastard) no baixo. Além de No Comment e Crossed Out, naquela ocasião também tocaram Assück, Man Is The Bastard, Capitalist Casualties e Plutocracy. 
O Man Is The Bastard chegou a tocar outras três vezes no Fiesta Grande enquanto  o Capitalist Casualties tocou em todas edições.

Chris Dodge: "A maioria das bandas de power violence não tinha muitos locais pra tocar e costumavam ficar de fora de muitos outros shows punk. Acho que o Capitalist Casualties tocou com o Green Day algumas vezes, e isso te dá uma idéia de como era o clima da cena punk daquele tempo. O Assück estava em turnê e Ken Saunderson estava reservando o Gilman naquela época. Eu estava falando com ele sobre arrumar algumas bandas power violence locais pra tocar com eles, e acho que foi o Ken a pessoa que sugeriu em fazer uma amostra das coisas da Slap A Ham. Foi a primeira vez que estas bandas tocaram todas juntas, e elas estavam finalmente criando sua própria cena."

Wood: "A primeira edição se destaca na minha mente, porque foi o primeiro, foi um conceito novo, e eu acredito que nenhuma outra vez houve uma programação tão boa. Eu tive que tocar duas vezes, com o MITB e o Crossed Out, mas foi a dupla função mais prazerosa que eu já tive."

Após o fim do Crossed Out, seus integrantes aparentemente desapareceram do hardcore. Sua discografia foi compilada pela Slap A Ham em CD, em 2000, contendo além das músicas da demo e dos EPs, várias gravações ao vivo, inclusive o set da primeira edição do Fiesta Grande. Também existiram inúmeros bootlegs, como a compilação Fuck Grindcore.

Em 1993, Max Ward (Plutocracy) e Dan se juntam a Chris Dodge (Slap A Ham) e formam o Spazz. Dodge também havia tocado no Stikky e até No Use For a Name! O Spazz é considerado da segunda onda do power violence e foi a primeira banda a romper a seriedade, adotando uma postura mais bem humorada e sarcástica, com elementos de hip hop, skate, filmes B, mas ainda assim sem perder a agressividade. Também foi a primeira deste "estilo" a contar com dois vocalistas. 


Chris Dodge: "Eu estava querendo começar uma outra banda thrash como um louco, mas não conhecia ninguém que estava livre pra começar uma, isso até depois do primeiro Fiesta Grande. Max Ward do Plutocracy citou uma banda de fastcore que ele estava começando junto com o Dan Bolleri do Sheep Squeeze, e disse que eles precisavam de um baixista. Max e Dan já tinham feito 10 sons, então nós ensaiamos eles uma vez, gravamos, e lançamos como nosso primeiro 7". Um pouco prematuro, mas... A banda inicialmente se chamava Gash, mas decidimos mudar o nome. Eu sugeri Spasm, mas já havia uma banda na costa leste com esse nome, então sugeri Spazz, e combinou."

O Spazz teve uma das discografias mais extensas do power violence. Além de inúmeros splits (Floor, Rupture, C.F.D.L., Romantic Gorilla, Brutal Truth, Charles Bronson, Toast, Monster X, Hirax, Jimmie Walker, Gob, Subversion, Lack Of Interest, Black Army Jacket, Slobber, Öpstand, e até com o 25 ta Life), foram lançados 3 LPs (que inclusive foram relançados recentemente pela 625 Thrashcore): Dwarf Jester Rising (1993), La Revancha (gravado em 1995 e lançado em 1997) e Crush Kill Destroy (1999), mais 3 EPs e 3 coletâneas integrando boa parte das músicas de splits, ao vivo e de coletâneas. 

Dodge: "O fato de que o meu selo foi chamado de Slap A Ham é a prova de que eu sou um bobão. Quando eu estava começando minha gravadora, eu me lembro de pensar o quão engraçado seria se algumas das bandas mais brutais do mundo todo queriam estar em um selo com um ridículo e inofensivo nome. Uma grande parte do humor do Spazz foi resultado de tédio. Estávamos cansados de como tudo era genérico na cena, então muitas de nossas letras eram referências da cultura pop e piadas sobre os nossos amigos e acabou soando coisas sem nexo, porque ninguém além de nós tinha alguma idéia do que estávamos falando."

Andrew Orlando, do Black Army Kacket e Gary do Nootgrush criaram o zine Monkeybite como forma de documentar a cena power violence que era ignorada por zines maiores como Maximum RocknRoll. O zine teve apenas três edições e era uma boa e divertida fonte de informação sobre as bandas da época. Junto com o zine ainda vinha um EP 7". Na segunda edição foi o split Black Army Jacket/Noothgrush e na terceira o flexi Benumb/Suppression.

Também em 1993 nasce o Apartment 213 em Ohio, provavelmente a primeira banda considerada power violence a romper a fronteira estadual da California. Boa banda com muita influência de Man Is The Bastard, inclusive fazendo algumas músicas mais experimentais e com letras inspiradas em assassinos em série. A banda continua viva e seu álbum mais recente foi o split com o Nothing Is Over, de 2010. Seu melhor álbum, ao meu ver, é o Cleveland Power Violence (2006), mas também recomendo o 93-97, com a discografia deste período.

Nesta mesma época também aparece o Despise You, com riffs mais metálicos e pesados, rápidos blast beats, e tendo uma mulher como integrante e uma das vocalistas, podendo ser a primeira banda de power violence a ter vocais femininos. Gravaram splits com o Crom, Suppression e Stapled Shut e um EP 7". Tiveram toda sua discografia, incluindo faixas de coletâneas e músicas para o que era para ser um split com o Man Is The Bastard, lançada em 1999 pela Pessimiser, selo de um dos integrantes da banda. Uma curiosidade sobre o Despise You são os nomes fictícios usados nos encartes dos álbuns, não listando os nomes reais. A banda voltou em 2011 com o split com o Agoraphobic Nosebleed com Chris Dodge no baixo e desta vez fazendo shows, coisa que não fazia durante os anos 90.

Cabe uma menção honrosa às bandas Crom e Suppression, que mesmo que tenham uma sonoridade mais voltada para o grindcore, também tiveram uma grande influência por parte do power violence. Em especial o Crom, com uma curiosa mistura de PV, grind e Conan.

Em 1995 R.D. Davies (bateria) e Matt Domino (guitarra e baixo) do Infest se reunem e gravam o instrumental das músicas para o LP No Mans Slave que mais tarde, em 2000, teve o vocal gravado por Joe Denunzio e foi lançado somente em 2002. Um álbum póstumo, já que o Infest não estava mais ativo mas ainda assim excelente. Felizmente retornaram em 2013 e estão fazendo shows. Além de Matt Domino e Joe Denunzio da formação original, estão também Chris Dodge e Bob (Lack Of Interest, Deep Six), respectivamente no baixo e bateria, formando uma espécie de Dream Team do power violence.

Felizmente com a tecnologia atual, os seus shows estão sendo registrados em vídeo com boa qualidade e podem ser acessados em sites como Youtube e Vimeo. Além disto, a Draw Blank, selo de Matt, lançou o EP Days Turn Black com quatro músicas inéditas gravadas em 1995, incluindo Why Be Somehing That You're Not? do Negative Approach.

Menos conhecido que as demais bandas californianas da época, o Evolved To Obliteration, que chegou a ter uma passagem de Max Ward (Spazz) nos vocais, fazia um ótimo som. Seu primeiro EP foi o split com o No Less, que saiu em 1994 pela 625 Thrashcore, o selo de Max. Além deste, lançaram o EP (1995) e o split EP com o Taste Of Fear (1996).

Falando em No Less, banda que considero mais voltada para o grindcore, não pode-se deixar de notar uma boa influência do power violence. Nasceram em 1993 e um álbum recomendado é a discografia Lessons '93 -'98 de 2004.

Outra bandas que merecem ser mencionadas e que atuaram durante a segunda metade dos anos 90, são a Jenny Piccolo da Califórnia e o They Live, de New York, esta com bastante influência do Infest.

O power violence viveu seu auge na primeira metade dos anos 90, com a Slap A Ham lançando praticamente tudo. Depois disso as bandas começaram a encerrar as atividades. No Comment e Crossed Out já haviam terminado em 1993, em 1996 foi a vez do Infest parar novamente, em 1997 foi o Man Is The Bastard, que seguiu como Bastard Noise com uma proposta mais experimental. O Spazz terminou em 2000, época em que Apartment 213 e Despise You também já não estavam mais lançando nada, porém voltariam anos depois. 

Dodge: "O Spazz separou-se oficialmente quando eu tive que me mudar para LA. O momento era bom e eu acho que se tivéssemos continuado, iríamos seguir lançando o mesmo tipo de som ano após ano. Ainda não estavam muito cansados de nós, então eu acho que é melhor sair enquanto estávamos bem, em vez de fazer com que todos pensem, 'Oh meu Deus , finalmente!'. O mesmo aconteceu com a Slap A Ham. Eu não podia me dar ao luxo de continuar com o selo. Ele estava perto da falência, e eu já estava tão endividado que tinha que parar. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha começado o selo para ajudar todas essas bandas que não estavam recebendo o reconhecimento que mereciam, e na hora de terminar o selo, já haviam selos suficientes de thrash / hardcore / powerviolence que poderiam continuar lançandos os discos. Então a Slap A Ham já não era necessária como nos primeiros dias, e já tinha servido ao seu propósito."

O Lack Of Interest, depois do seu ótimo álbum Trapped Inside de 1999, lançaria seu próximo disco apenas em 2006 e desde então vem lançando alguns splits e tocando ao vivo. 
O Capitalist Casualties também continuou e segue até hoje lançando muitos álbuns, embora o início dos anos 2000 não tenha sido tão produtivo em relação à lançamentos.
Dos integrantes destas clássicas bandas foram aparecendo novas bandas. Uma não tão nova é o Low Threat Profile, formada em 1996, mas só à partir de 2010 começaram a lançar seus álbuns. Antes disso a banda já havia aparecido nas coletâneas Reality Part #4 CD/LP (2002, Deep Six), California Thrash Demolition CD (2004, 625 Thrash) e Socal Thrash Demolition 7" (2004, 625 Thrash).

Em 2010 lançaram um EP chamado Product #1, contando com gravações de 2001 e o LP Product #2, com gravações de 2000 e a adição do vocal em 2010. Nestes álbuns a banda contava com a luxuosa formação com Andy Beattie (No Comment, Man Is The Bastard) no vocal, Matt Domino (Infest, Neanderthal) na guitarra e Bob (Lack of Interest) na bateria, combinando especialmente a sonoridade do No Comment com o Infest. 
A banda já sofreu algumas mudanças na formação, também com passagens de Chris Dodge e Joe Denunzio.

O To The Point é uma das mais novas preciosidades do powerviolence californiano, contando com os onipresentes Chris Dodge, desta vez nos cavernosos vocais e Bob, na bateria. O som é na linha do Lack Of Interest, inclusive tendo praticamente a mesma formação. É o caso de Bob, Kevin Fetus e o próprio Chris Dodge. Além dos três, também temos Dustin Johnston do Marion Barry na formação. A sonoridade, além de bases rápidas com constantes mudanças, ainda tem algumas passagens mais melodiosas na guitarra em algumas músicas mas com ótimo resultado.

O To The Point já lançou os EPs Success In Failure, Mentally Checked Out, um split com o Yacopsae, todos estes de 2012. Em 2013 também lançou o split EP com o ACxDC, e um split LP 10" com o Pick Your Side.


Muito se discute sobre o que é ou não power violence. Nem todas bandas anteriormente citadas tinham um som semelhante, como o caso do Capitalist Casualties que soa muito mais como uma banda de thrashcore, mas ainda assim é considerada por todos como power violence, talvez por ser visto mais como um movimento do que apenas um estilo de som. Alguns dos antigos, como Eric Wood, considera apenas estas primeiras bandas como realmente power violence, embora também credencie assim o Endless Blockade do Canadá. De fato esta classificação não é mais importante, e sim que ainda surjam bandas com aquele espírito do início dos anos 90. Porém, atualmente existem muitas bandas se denominam ou são referenciadas como power violence e que não as vejo desta forma. Mas se faz ou não parte do gênero, não é o mais importante.

Wood: "Um monte de bandas que pensam que são powerviolence hoje, eles não são merda nenhuma. As duas que existem hoje, porque recebem o aspecto psicológico do mesmo, são Apartment 213 de Cleveland e o Endless Blockade de Toronto. Eles entenderam totalmente a ideia. Isso é powerviolence." 

Fim da primeira parte.

Continua na parte 2 com bandas mais recentes e de outras partes do mundo. Até lá!

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Fonte: [interview] An Oral History of Powerviolence
Algumas traduções retiradas do blog Mutante Irracional

Um comentário:

  1. Ah, que irado!

    Dá pra aprender muito com este texto, vou mostrar pros amigos.

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